Epilepsia

Aproximadamente 50 milhões de pessoas em todo o mundo têm epilepsia, o que faz desta doença a condição neurológica grave mais comum. Nos países desenvolvidos, a incidência anual é estimada em 50 a 70 casos por cada 100 000 pessoas (a incidência é maior nos países em desenvolvimento em virtude da pior assistência materno-infantil e piores condições sociais, com um consequente maior risco de infecções cerebrais e traumatismos cranianos).

Uma crise epiléptica é um evento súbito e transitório que resulta de uma anormal e excessiva descarga de um conjunto de neurónios no cérebro. Dependendo da localização e distribuição da descarga, esta actividade eléctrica anormal do sistema nervoso central pode apresentar-se sob a forma de diferentes manifestações clínicas - motoras, psíquicas, sensoriais e autonómicas - com intensidade variável - desde actividade convulsiva intensa (que assume uma elevada carga emocional) a fenómenos experienciais subjectivos (que muitas vezes não são percepcionados pelo próprio ou por terceiros).

Epilepsia e crise epiléptica não são sinónimos e é importante fazer uma clara distinção entre os dois termos.

Epilepsia é uma condição caracterizada pela recorrência de crises epilépticas espontâneas (duas ou mais), ou seja, não provocadas por nenhuma causa imediata modificável. A epilepsia é então uma condição em que há uma predisposição para a repetição de crises devido a um processo subjacente crónico (ainda que, muitas vezes, o diagnóstico preciso dessa condição crónica não seja estabelecido). Segundo esta definição, uma pessoa com uma crise epiléptica ou várias crises devidas a causas modificáveis ou evitáveis imediatas não tem necessariamente epilepsia. A epilepsia é um fenómeno clínico mais do que uma doença única, uma vez que existem muitas formas e causas de epilepsia.

A determinação do tipo de crise é essencial para seleccionar a terapêutica mais apropriada, para focar a abordagem diagnóstica em etiologias específicas e para, potencialmente, permitir definir um prognóstico mais correcto.

Em 1981, a Liga Internacional Contra a Epilepsia (ILAE - International League Against Epilepsy) publicou uma versão modificada da Classificação Internacional de Crises Epilépticas que continua ser a mais frequentemente utilizada (Quadro 1). Esta classificação assenta nas características clínicas das crises e nos achados electroencefalográficos associados.

O princípio fundamental nesta classificação é a divisão em duas grandes classes - crises parciais (sinónimo de focais) ou generalizadas.

As crises parciais são aquelas em que a actividade eléctrica anormal começa numa área localizada do córtex cerebral enquanto as crises generalizadas têm um início simultâneo em ambos os hemisférios cerebrais. Algumas crises são difíceis de englobar numa classe e são consideradas como sendo crises não classificadas ou indeterminadas.

A incidência varia de forma acentuada com a idade, com uma taxa superior na infância precoce, valores baixos na vida adulta e com um segundo pico de incidência a partir dos 65 anos. Nos últimos anos, apesar da incidência global se manter mais ou menos constante, assistimos a uma diminuição da incidência nas crianças e a um aumento nos idosos, de tal forma que o segundo pico de incidência é actualmente maior que o primeiro. A prevalência pontual de epilepsia activa varia entre os 0,5 a 1% da população.

Quadro 1
Classificação das crises epiléticas da ILAE (simplificada).
Crises Parciais
  • Simples (com sinais motores, sensitivos, autonómicos ou psíquicos)
  • Complexas
  • Secundariamente generalizadas
Crises Generalizadas (primariamente)
  • Ausências (típicas e atípicas)
  • Miaclónicas
  • Clónicas
  • Tónicas
  • Tónaco-clónicas
  • Atónicas
Crises Indeterminadas
  • Exemplos: crises neonatais, espasmos infantis

De forma global, cerca de 60% dos doentes apresentam-se com crises parciais e cerca de 40% com crises primariamente generalizadas. Na infância, as crises generalizadas predominam, até por volta dos 6 anos, quando as proporções se igualizam, mantendo-se aproximadamente assim no início da idade adulta. À medida que a idade avança assiste-se a um progressivo predomínio das crises parciais.

As crises epilépticas são sinais de alterações neurológicas e constituem apenas uma manifestação de muitas doenças neurológicas diferentes. Assim sendo, o médico deverá procurar enquadrar as manifestações clínicas de cada doente com crises epilépticas (como sejam o tipo e a semiologia das crises, a idade de início, a história familiar, etc.) e os resultados dos exames auxiliares de diagnóstico (EEG, RMN, entre outros) e definir o síndrome epiléptico em questão, sempre que possível.

O prognóstico da doença é favorável na maioria dos doentes com epilepsia, sendo fortemente influenciado pela causa subjacente. Em algumas pessoas, particularmente nas crianças, a epilepsia entra em remissão, apesar de uma proporção substancial manter a condição para o resto da vida. De forma global, 60 a 70% dos doentes ficam livres de crises após o tratamento com antiepilépticos (figura 1) e alguns desses podem manter-se em remissão mesmo após a suspensão da terapêutica. Os outros 30 a 40% dos doentes mantêm crises, com graus variáveis de frequência e gravidade (epilepsia refractária).

Item 1
Figura 1
Proporção de doentes livres de crises em resposta ao tratamento com AEs.
Fonte: adaptado de Brodie MJ, Kwan P, Schachter SC. Fast Facts: Epilepsy. 3rd edition. Oxford (UK): Health Press Limited; 2005