
Um terço da população irá morrer vítima de AVC ou sofrer de Demência, caso não haja intervenção ao nível do diagnóstico, tratamento e prevenção. Este foi o ponto de partida para a investigação agora premiada com o Grande Prémio BIAL de Medicina, no valor de 200 mil euros, um dos maiores prémios europeus na área da saúde. A cerimónia de entrega do Prémio BIAL foi presidida pelo Presidente da República, Prof. Cavaco Silva, e decorreu na Escola de Ciências da Saúde da Universidade do Minho.
"O longo rastilho: AVC's silenciosos e a traiçoeira doença de Alzheimer" é o título do trabalho vencedor que aborda a relação entre os acidentes vasculares cerebrais (AVCs) e a doença de Alzheimer. O autor, Vladimir Hachinski, defende que as doenças, aparentemente distintas, têm muito em comum e revela que estas patologias não se adicionam, potenciam-se.
Professor de Neurologia na Universidade Western Ontario, Canadá, editor da revista médica "Stroke", publicação da American Heart Association, e Vice Presidente da World Federation of Neurology, Vladimir Hachinski é um investigador consagrado. Doutor Honoris Causa por várias Universidades Internacionais, foi condecorado em 2008 com a Order of Canada pelo trabalho desenvolvido na investigação nas áreas da demência e dos AVC.
O trabalho de investigação agora premiado abre caminho a importantes perspectivas terapêuticas que poderão adicionar anos de cérebro saudável aos anos de vida da maioria dos doentes. O autor defende um plano preventivo, que assenta num maior rigor nos critérios de diagnóstico, e aponta soluções que permitem uma distinção mais precisa entre os défices cognitivos de memória (mais ligados à doença de Alzheimer) e os de função executiva (mais ligados aos AVCs silenciosos).
Na investigação científica que tem desenvolvido, Vladimir Hachinski defende ainda que as indicações de ligeiras perdas de função executivas devam ser encaradas como sinais clínicos da maior importância, dado que são indiciadores de patologia inicial passível de intervenção precoce, que mude positivamente o curso da doença.
Todos os anos 1,4 milhões de cidadãos europeus desenvolvem Demência, o que significa que a cada 24 segundos, um novo caso é diagnosticado. Estes dados revelados pelo Projecto European Collaboration on Dementia (Eurocode) e conduzido pela Alzheimer Europe, adiantam ainda que o número de cidadãos europeus com Demência ronda os 7,3 milhões. Em Portugal estima-se que existam cerca de 153 000 pessoas com Demência, dos quais 90 000 com Doença de Alzheimer. Face ao envelhecimento da população na generalidade dos países europeus, os especialistas prevêem uma duplicação destes valores em 2040 na Europa Ocidental, podendo atingir o triplo na Europa de Leste.
Novos usos para "velhos" fármacos
Outro trabalho distinguido procura desafiar a comunidade científica a criar um repositório de fármacos para uso clínico, tirando partido de êxitos passados relativamente à redescoberta de medicamentos.
A menção honrosa "Novos Usos para Fármacos já Usados" foi atribuída a um trabalho de investigação que procurou descobrir inibidores da malária e da angiogénese, úteis sob o ponto de vista clínico a partir de fármacos já existentes. Os autores criaram e rastrearam um repositório de 2 687 fármacos, e identificaram três novas indicações clinicamente promissoras para fármacos já existentes, nomeadamente, para o combate à malária, a doença que maior número de pessoas mata todos os anos no Mundo.
O trabalho foi coordenado por Curtis R. Chong, Médico da Harvard Medical School, Boston, EUA, em colaboração com o Professor Jun O. Liu, Professor de Farmacologia do Johns Hopkins University, School of Medicine, Baltimore, EUA e com David J. Sullivan Jr., Professor Associado de Microbiologia Molecular e Imunologia, do Malaria Research Institute, Johns Hopkins Bloomberg School of Public Health, Baltimore, EUA.
"O genoma humano em ação" é o título de outro trabalho distinguido com Menção Honrosa. Este estudo retrata os principais resultados do grupo de investigação liderado pela Prof. Carmo Fonseca, Diretora Executiva do Instituto de Medicina Molecular, e recentemente galardoada com o Prémio Pessoa, obtidos ao longo da última década. O tema central deste trabalho assenta na compreensão e investigação em torno da compartimentalização nuclear na função genómica e suas implicações na abordagem terapêutica.
"Estimulação Cerebral Profunda: do tratamento da Doença de Parkinson a uma nova visão do funcionamento do cérebro" é o título de outro trabalho distinguido com uma menção honrosa. A investigação efectuada a partir do tratamento da doença de Parkinson com esta técnica permitiu acumular conhecimentos fundamentais para a compreensão de mecanismos subjacentes ao funcionamento do cérebro. A investigação foi coordenada pelo Professor Rui Vaz, Diretor do Serviço de Neurocirurgia do Hospital S. João, Porto.
O tema da obesidade foi também distinguido na 14ª edição do PRÉMIO BIAL através do trabalho coordenado pela Prof. Isabel do Carmo "A Obesidade na Prática Clínica". Comparativamente com estudos anteriores, realizados entre 1995 - 1998, esta investigação conclui que houve um aumento de 4% no total de população com peso excessivo. Em Portugal os adultos apresentam uma prevalência de 39,4% de pré-obesidade e 14,2% de obesidade, sendo 45,6% da população portadora de perímetros da cintura preditivos de risco cardiovascular. As autoras defendem um tratamento multidisciplinar - médico, nutricional, físico e, se necessário, cirúrgico - para combater os números crescentes da obesidade.
Nesta edição do PRÉMIO BIAL foram premiados cinco trabalhos inéditos que estão na vanguarda da investigação científica mundial na área da saúde - o 'Grande Prémio BIAL de Medicina', no valor de 200 mil euros e quatro menções honrosas no valor de 5 mil euros.
PRÉMIO BIAL já analisou 518 obras candidatas e mobilizou 1156 investigadores, médicos e cientistas
Desde a sua criação em 1984, o PRÉMIO BIAL já analisou 518 obras candidatas e mobilizou 1156 investigadores, médicos e cientistas. Em catorze edições, distinguiu 227 autores, 87 obras premiadas, e distribuiu gratuitamente pela classe médica mais de 30 obras premiadas, num total de cerca de 300 000 exemplares.
Considerado um dos prémios de investigação científica de grande prestígio a nível mundial na área da Saúde, a 14ª edição do PRÉMIO BIAL recebeu um número recorde de 63 candidaturas, provenientes de Portugal, Brasil, Canadá, Espanha, EUA, Itália, Peru e Reino Unido.
O júri do PRÉMIO BIAL 2010 foi presidido pelo Professor Nuno Sousa e constituído por representantes dos Conselhos Científicos das Escolas de Medicina Portuguesas, Professores Agostinho Almeida Santos (Faculdade de Medicina de Coimbra), António Sousa Guerreiro (Faculdade de Ciências Médicas da Universidade Nova de Lisboa), Carlos Lopes (Instituto de Ciências Biomédicas Abel Salazar), Henrique de Barros (Faculdade de Medicina do Porto), Joana Palha (Escola de Ciências da Saúde da Universidade do Minho), José Manuel Calheiros (Faculdade de Ciências da Saúde da Universidade da Beira Interior) e Leonor Parreira (Faculdade de Medicina de Lisboa).
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