“Sono e Sonhos”: últimas descobertas em discussão no 9º Simpósio Aquém e Além Cérebro
“Sono e Sonhos”: últimas descobertas em discussão no 9º Simpósio Aquém e Além Cérebro
Porque precisamos dormir?
Qual o significado dos sonhos?
Dormir afeta a nossa memória?
Podemos controlar o que sonhamos?
O que se passa no corpo humano enquanto dormimos?
Estas são algumas das questões que pretendem ser respondidas durante o 9º Simpósio da Fundação BIAL, dedicado à análise e discussão do “Sono e Sonhos”, a decorrer de 28 a 31 de Março, na Casa do Médico, no Porto. Muitas outras questões certamente surgirão, apontando novos caminhos na investigação científica mundial em neurociências nestes domínios.
O Simpósio é dedicado a três grandes temas: no dia 29 de março a 1ª sessão aborda a neurobiologia dos processos do sono e da cognição. No dia 30 de março serão abordados os aspetos anómalos subjacentes aos sonhos. Por fim, na 3ª sessão do simpósio, no dia 31 de março, o tema “Sono e Sonhos” será analisado de forma multidisciplinar sob o ponto de vista social.
O Simpósio contará igualmente com a apresentação dos resultados de vários projetos de investigação dos bolseiros da Fundação BIAL, que serão apresentados e estarão patentes numa exposição de posters. No dia 30 de Março, pelas 21h30, decorrerá uma tertúlia científica onde temas sobre o sono e o sonho que não foram diretamente abordados nas sessões do Simpósio poderão ser debatidos livremente entre todos os participantes.
O Simpósio “Aquém e Além do Cérebro” é uma iniciativa da Fundação BIAL que teve início em 1996. Esta nona edição do Simpósio “Aquém e Além do Cérebro” traz a Portugal os maiores especialistas na área do sono e dos sonhos, responsáveis pelas investigações mais relevantes e atuais neste âmbito.
Sonhar a vida
Caberá ao Professor Allan Hobson, professor jubilado de psiquiatria da Harvard Medical School, EUA, inaugurar o encontro numa sessão em que apresentará os resultados das suas investigações e a Teoria da Protoconsciência. Para este notável investigador o sono é uma espécie de antecâmara da consciência que permite criar uma realidade virtual e preparar-nos para estarmos mais vigilantes no dia seguinte. Segundo a sua teoria, o sonho permite o treino e a preparação para a nossa realidade durante a vigília.
Stephen LaBerge, eminente investigador da Universidade de Stanford, EUA, vem apresentar a teoria do Sonho Lúcido. LaBerge defende que é possível as pessoas terem consciência de estar a sonhar enquanto permanecem adormecidas, totalmente envolvidas no mundo do sonho que pode parecer tão vívido e "real" como a realidade em estado de vigília. Nos sonhos lúcidos é possível raciocinar, recordar a condição de alguém no estado de vigília e agir deliberadamente no sonho.
LaBerge tem uma metodologia para ensinar as pessoas a terem sonhos lúcidos, muito semelhantes às experiências da vida real, com influência nas experiências físicas e fisiológicas. Os seus estudos vêm revolucionar a investigação nesta área já que estar "acordado dentro dos sonhos" permite explorar o modo pelo qual o cérebro cria a realidade vivida, trazendo uma nova perspetiva acerca do significado de estar desperto.
10% da população mundial sofre de insónia
A insónia é o tema central da intervenção de Eus van Someren, Diretor do Departamento do Sono e Cognição do Instituto Holandês para a Neurociência. Dados recentes indicam que 10% da população mundial tem insónia crónica, fruto de doença, desgosto, stress, entre outros fatores decisivos para a qualidade do sono. De referir ainda que 3% da população mundial tem sempre uma insónia grave, permanente.
Apesar da insónia apresentar consequências graves e, por exemplo, constituir o principal fator de risco para o desenvolvimento de transtornos psiquiátricos, a compreensão dos seus mecanismos cerebrais é muito limitada. A palestra de Van Someren fornece-nos exemplos que ilustram o potencial das atuais ferramentas de imagem cerebral para combater os mecanismos subjacentes à insónia, perceber e identificar as suas causas e consequências.
Sono e Sonhos, Memória e Emoções
Robert Stickgold, Psiquiatra e Professor de Psiquiatria da Harvard Medical School, irá abordar a relação e o papel do sono e dos sonhos na memória. Para simples competências processuais - como andar de bicicleta ou distinguir diferentes moedas no bolso - uma noite de sono ou uma sesta à tarde promovem uma melhoria significativa no desempenho. O sono também estabiliza memórias verbais e pode promover a retenção seletiva de memórias emocionais. Através de um processamento qualitativo da memória, o sono confere assim significado aos acontecimentos das nossas vidas.
A forma como o sono e a emoção interagem no processo de consolidação da memória e, deste modo, influenciam a tomada de decisão ao despertar é o tema da intervenção de Sophie Schwartz, da Universidade de Genebra. Para esta investigadora as emoções nos sonhos (positivas ou negativas) refletem o processamento de informação emocionalmente relevante.
O sono e a emoção desempenham funções vitais promovendo respostas adaptadas aos desafios psicológicos (ou físicos) do passado ou futuro. Esta visão emergente é promissora na investigação fundamental e clínica. Sophie Schwartz defende que estes estudos podem ter aplicações concretas no que diz respeito à promoção da saúde pública, particularmente devido à tendência da sociedade atual em que se vive em ritmo acelerado e as pessoas dormem menos horas do que seria aconselhável.
No Simpósio Aquém e Além do Cérebro serão também revisitadas as teorias psicológicas em torno da interpretação dos sonhos. Caroline Watt, Professora de Parapsicologia na Universidade de Edimburgo, Escócia, defende que sonhar com um evento futuro é uma das experiências paranormais mais comuns. No entanto, os estudos realizados não permitem ainda uma conclusão, umas vezes ocorrem as previsões dos sonhos, outras não. A apresentação de Caroline Watt irá rever os principais mecanismos psicológicos que explicam o motivo pelo qual as pessoas podem, erroneamente, concluir que possam ter tido um sonho premonitório.
Doenças cardiovasculares entre as consequências de dormimos cada vez menos
A interligação entre o sono, os sonhos e a vida social será explorada por Teresa Paiva, investigadora pioneira do estudo do sono em Portugal. As perturbações de sono situam-se entre as perturbações cerebrais mais dispendiosas na Europa. Em 2010 foram gastos 35,4 mil milhões de Euros, ocupando a 9ª posição num grupo de 19 perturbações.
Atualmente, as influências sociais representam um impacto importante na redução do sono, no agendamento e organização do trabalho, com consequências dramáticas sobre a saúde física e mental e sobre a esperança de vida. É amplamente reconhecido que dormir pouco ou em excesso encontra-se associado a um risco aumentado de hipertensão e doenças cardiovasculares, obesidade, diabetes tipo 2, insónia, depressão, cancro e redução da esperança de vida. O sono e a fadiga são responsáveis por muitos acidentes de tráfego. Os níveis crescentes de sonolência diurna entre crianças e adultos jovens e o consumo excessivo de medicamentos que promovem o sono representam uma grande preocupação social. Segundo esta investigadora portuguesa, a sociedade e os serviços de saúde são obrigados a prestar atenção aos números atuais.